César Obeid entrevista Camilla Gryski.

Tradução de Maria Lúcia Cumo

 

Senhora Grysky, obrigado por responder algumas questões a respeito de figuras de barbante para os brasileiros. Você é uma referência neste trabalho e para nós, é um prazer escutá-la. A primeira questão é “Onde você nasceu e qual foi o seu primeiro contato com figuras de barbante?”  

1. Nasci na Inglaterra, a minha família imigrou para o Canadá quando eu era criança. Acho que a primeira figura de barbante que aprendi foi cama de gato. A minha sensação era de que sempre havia sabido todas as etapas. Talvez a minha mãe tenha me ensinado, ou talvez eu tenha aprendido no recreio da escola. Quando comecei a fazer pesquisa para os meus livros, descobri que as etapas que eu conhecia tinham nomes diferentes em várias culturas e, para mim, virou um passatempo colecionar alguns dos nomes.


2- Por que você decidiu usar figuras de barbante e cama de gato no seu trabalho nas bibliotecas e escolas?

Eu me apaixonei pelas figuras de barbante. Era 1980 e eu era voluntária na área destinada a entreter as crianças, durante um festival folclórico. Um homem chamado Ken McCuaig trouxe um grupo de crianças com quem ele havia trabalhado na escola e que ele chamava de “banda de cordas”. De repente, todo mundo estava brincando com barbante. Aprendi a fazer a Cup and Saucer (xícara e pires) e  Owl's Eyes (olhos de coruja) naquele dia e tudo mudou para mim. Fiquei encantada, porque as figuras de barbante existem no mundo inteiro e foram colecionadas por antropologistas. E adorei as histórias que as acompanhavam.

Em 1982, Ricky Englander, da Kids Can Press, me pediu para escrever o livro que veio a ser “Cat's Cradle, Owl's Eyes” e oficinas, visitas a escolas naturalmente seguiram o lançamento do livro. Eu era professora e, na época, trabalhava como bibliotecária e contadora de histórias para crianças. Eu me sentia muito à vontade com criança. Nessa época, eu já tinha a minha família. Os meus filhos tinham 7 e 4 anos, quando o meu primeiro livro foi lançado. O meu filho mais velho foi o meu primeiro leitor, eu sabia que dedinhos com sete anos de idade eram capazes de fazer todas as figuras do livro. Em algumas das minhas turnês como autora visitei o Arquipélago Ártico Canadense, onde, além de ensinar algumas, pude aprender outras figuras de barbante.

3- Às vezes alguém me diz como é difícil fazer uma figura mais complicada. O que realmente precisamos para ser um “expert” em figuras de barbante?

 Sempre falei para as crianças que cada figura de barbante era um quebra-cabeças para resolver e as incentivei a trabalharem juntas. Algumas crianças aprendem as figuras com mais facilidade do que outras, isso não está necessariamente ligado à inteligência. Nas escolas canadenses, em particular de Toronto, há crianças de muitos países e muitas conhecem as figuras de barbante do país natal. Era sempre divertido ver uma criança ensinando os colegas aquilo que aprendeu com a mamãe ou o papai, ou a vovó ou o vovô.

É imprescindível que quem ensine figuras de barbante, professora ou escritora, tenha muita clareza e aprenda a dividir as figuras em etapas fáceis de realizar. Eu sempre ensinava as mais fáceis primeiro, depois, fazias as crianças se ajudarem umas às outras. Para o livro, boas imagens também são importantes. Tom Sankey ilustrou muito bem e sempre tive bons editores. Quando a figura deixa de ser uma sequência de passos e se torna um movimento fluído, as mãos decoram, seja a sequência curta ou longa de movimentos.
Não tem nada a ver com o cérebro!

4- Hoje em dia, nossas crianças amam Brincar com computadores e jogos eletrônicos interativos, mas quando eles aprendem a fazer uma figura, eles não conseguem parar de mover as mãos até completar a figura.  Qual é essa mágica e as figuras de barbante têm futuro neste mundo eletrônico?

4- As figuras de barbante >são< mágicas e verdadeiramente humanas. Pessoas de tantas culturas diferentes pelo mundo todo brincam com barbante. É tão gratificante conseguir fazer uma coisa maravilhosa só com um barbante. Fazer a figura, desmontar e fazer de novo. Depois, dobrar o barbante e guardar no bolso para a próxima vez. Ainda tenho sempre um pedaço de barbante na minha bolsa…

Quando eu terminava as oficinas, sempre dizia para as crianças que podiam ficar com os barbantes, porque mereciam. Mas parecia que eu estava dando uma coisa muito mais preciosa do que um pedaço de barbante, eles sempre soltavam um grito de alegria.

Jogo de barbante é só um dos muitos jogos tradicionais, como pega-pega, bola, esconde-esconde, pular corda e bolinhas de gude. Pelas oficinas para Let's Play, o meu livro de jogos tradicionais, sei que as crianças brincam e ainda adoram brincar. Com frequência, escondem essa cultura de infância dos adultos. Às vezes, as crianças não compartilham esses jogos, mas eu acho que continuam presentes na vida delas.

Na nossa sociedade moderna, porém, há muita preocupação com segurança. As crianças têm muito menos liberdade agora do que tinham antes, até mesmo de quando os meus filhos eram pequenos. Não sobem em árvore nem exploram a natureza, porque nos preocupamos muito em mantê-los em segurança. Algumas escolas proibiram pular corda e bolas duras, devido às preocupações com segurança. Acho que há pessoas que entendem o valor desse tipo de experiência na infância e esperemos que as crianças continuem podendo brincar com liberdade.

5- Você publicou fantásticos livros a respeito de brincadeiras (barbantes, jogos de mão, braceletes, jogos tradicionais) Qual é a importância do brincar para a infância?

Brincadeiras na infância – isso é tema para um livro completo e passei muito tempo pensando nisso, quando estava estudando para o meu grau de Mestre em Educação.
Todas as épocas, acho que quero dizer “eras”, redefinem a brincadeira para que se adapte à sua própria visão do mundo. Um dos meus livros favoritos sobre brincadeira é de Brian Sutton-Smith, que vem pesquisando e dando aulas sobre brincadeira há mais de 50 anos, chama-se The Ambiguity of Play [A ambiguidade da brincadeira]. Hoje em dia, muita gente diz que a brincadeira é o “trabalho” da criança, porque os adultos querem dar um valor adulto para ela. Sutton-Smith diz que brincadeira é simplesmente brincadeira e que isso deve bastar. As crianças aprendem sobre o mundo através das brincadeiras, sem dúvida, aprendem a respeito dos outros e como ter criatividade e habilidade nas coisas. Mas é imprescindível que a brincadeira e os jogos infantis sempre pertençam às crianças.

Também existe a teoria de que a brincadeira livre dá à criança a chance de “expirar”, quando passa tanto tempo “inspirando” informação. E não são só as crianças que precisam de brincar, nós todos precisamos.

6- A última é; pode falar a respeito do seu fantástico trabalho como Clown em um hospital? 

Trabalhei como palhaço terapeuta no Hospital SickKids, em Toronto, durante quase 15 anos. Durante nove anos, brinquei e trabalhei com crianças com câncer, depois, durante os últimos cinco anos que fiquei lá, trabalhei como palhaço terapeuta para o Palliative and Bereavement Care [serviço de conforto e cuidados para a dor do luto]. As crianças sofriam de doenças que punham em risco as suas vidas e muitas morriam. Eu visitava as crianças e as suas famílias em casa e também no hospital. Eu as fazia brincar durante a fase em que eles todos estavam vivendo problemas muito sérios.

Para essas crianças e famílias, o palhaço terapeuta dava licença para brincar, convidava para brincar, mesmo quando as suas vidas estavam repletas de enfermidade e dor e do desconhecido. O palhaço e a criança criavam entre eles um espaço para brincadeiras. Era um espaço dentro do hospital, mas era separado, um mundo imaginário onde podíamos fazer as regras e o palhaço terapeuta sempre entrega o poder e o domínio para a criança. A criança sempre mandava em mim e isso significava que eu estava fazendo tudo certinho.

 Se mudavam algumas coisas na brincadeira, eu contava para a equipe médica os meus temores. Uma criança fez todos os meus brinquedos me atacarem, por exemplo, e a brincadeira parecia que ia ficar violenta. Contei para a equipe. Aprendi, naquela época, que as crianças precisam tanto de brincar que continuavam brincando comigo enquanto conseguissem, até um dia ou dois antes de morrerem. Foi um privilégio fazer esse trabalho e sou diferente hoje, porque crianças e famílias assim compartilharam suas vidas comigo.

Saí do SickKids há uns dois anos, depois de 33 anos no total. Ainda tenho figuras de barbante nos meus dedos e muitas músicas e brincadeiras de mão na minha cabeça e, agora, tenho uma netinha para brincar comigo…